Este artigo integra a coluna “Despertar Regenerativo”, uma iniciativa conjunta da ESGpec e do MilkPoint dedicada a explorar, com base científica e aplicada, os caminhos da pecuária sustentável e regenerativa.
Por aqui, disponibilizamos acesso gratuito às ferramentas digitais da ESGpec, permitindo que produtores de leite avaliem a pegada de carbono, o bem-estar animal e o desempenho ESG de suas fazendas.
O Brasil encerrou 2024 com redução de 16,7% nas suas emissões de gases de efeito estufa, segundo dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), coordenado pelo Observatório do Clima. Foi a maior queda desde 2009, puxada pelo recuo expressivo do desmatamento, especialmente na Amazônia (-11%) e no Cerrado (-11,5%).
Mesmo assim, o país deve “bater na trave” da meta estabelecida na sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). Em 2025, o teto é de 1,32 bilhão de toneladas de CO²e emitidas, mas as projeções indicam que devemos atingir 1,44 bilhão.
De toda forma, temos que reconhecer o sucesso parcial, que vem acompanhado de uma mudança importante na composição das emissões nacionais. À medida em que diminui a parcela associada à mudança de uso da terra, historicamente o maior vilão, outros setores ganham peso relativo. A agropecuária, por exemplo, responde por cerca de 29% das emissões do país, o equivalente a 626 milhões de toneladas de CO² equivalente (Mt CO²e), compondo o total nacional de 2.145 megatoneladas de CO²e (ou seja, 2.145 milhões de toneladas) (SEEG, 2024).
Dentro deste setor, a pecuária é responsável pela maior parcela, tanto pelas emissões diretas de metano entérico quanto pelas emissões associadas à produção de alimentos para os animais, manejo de dejetos e uso de fertilizantes, combustíveis e energia nas propriedades rurais.
O metano gerado naturalmente na digestão dos ruminantes é hoje uma das maiores fontes individuais de gases de efeito estufa do Brasil. De acordo com a série histórica do SEEG, em 2024, a agropecuária brasileira emitiu cerca de 15,7 milhões de toneladas de CH4, o que, considerando o potencial de aquecimento global 27 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO²), equivale a aproximadamente 424 milhões de toneladas de CO²e.
Em termos comparativos, esse volume é maior que as emissões totais anuais do Reino Unido (≈ 371 Mt CO²e) e da França (≈ 366 Mt CO²e) em 2024.
Por si só, este dado revela o tamanho da oportunidade climática e tecnológica que a pecuária brasileira representa: reduzir as emissões pode ter o mesmo impacto climático que descarbonizar uma grande economia.
Outra boa notícia é que as soluções também estão cada vez mais claras. Nos últimos anos, o Brasil consolidou sua base científica para medir e reduzir as emissões da pecuária. A adoção de bases de dados nacionais e a disponibilidade de plataformas digitais permitem estimar a pegada de carbono do leite de cada fazenda e identificar a contribuição de cada uma das principais fontes: metano entérico, produção de alimentos, manejo de dejetos, pastagens e fertilizantes, energia e mudanças no uso da terra.
O avanço na ciência dos aditivos alimentares reforça esse potencial. Compostos sintéticos podem reduzir as emissões de metano em até 30%, enquanto macroalgas do gênero Asparagopsis têm demonstrado potencial para reduções ainda maiores em testes controlados. Soluções naturais, como taninos e óleos essenciais, também têm sido estudadas e mostram reduções de 5 a 15%, com a vantagem de serem compatíveis com mercados que exigem produtos livres de aditivos químicos.
Esses ganhos técnicos, combinados a técnicas de manejo do solo, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e maior eficiência alimentar, podem transformar a pegada de carbono do leite e da carne brasileiros e, com isso, a realidade produtiva e econômica da agropecuária.
Enquanto a média global de emissões do leite é estimada em cerca de 2,4 kg CO²e por kg de leite (FAO, 2010), estudos brasileiros conduzidos pela Embrapa Gado de Leite em 1.791 fazendas brasileiras que comercializam leite fluido para multinacionais apontam pegada média de 1,10 kg CO²e/kg de leite corrigido para proteína e gordura, mostrando que as fazendas mais tecnificadas no Brasil apresentam pegadas próximas às de países desenvolvidos na Europa e na América do Norte.
No entanto, a transição vai além da tecnologia. A forma como a pecuária é vista no centro do debate climático é outro aspecto crítico. Durante anos, o discurso se concentrou no desmatamento, um problema grave, mas cujo controle isolado não garante a neutralidade climática. O passo seguinte é olhar para as emissões dentro da porteira e transformar dados em decisão. Afinal, cada litro de leite ou quilo de carne produzido com menor emissão de metano representa ganho ambiental mensurável para o Brasil e também a geração de ativos econômicos num mundo que cobra transparência de toda a cadeia produtiva.
O Inventário Nacional de Emissões e Remoções de GEE, publicado pelo MCTI com apoio do PNUD e baseado nas diretrizes do IPCC, já reflete essa mudança. Com dados regionais e metodologia Tier 2 e 3 para 95% das categorias, o Brasil passou a submeter relatórios bienais de transparência à ONU. Esses documentos mostram que a mitigação no campo é condição essencial para cumprir a NDC e fortalecer a posição do país nas rodadas de negociação como a da COP30, recentemente realizada em Belém.
A redução nas emissões observada em 2024 não é o fim de um ciclo. Ela mostra o caminho e é um convite para um novo modelo de desenvolvimento que une desenvolvimento, produção e preservação.
Como participar do Despertar Regenerativo
Produtores de leite podem participar gratuitamente do projeto e obter indicadores de pegada de carbono, bem-estar animal e desempenho ESG de suas fazendas.
Basta acessar despertarregenerativo.com.br e realizar o cadastro.
O acesso é individual, válido por 12 meses, e inclui suporte por e-mail durante todo o período.
Conheça os indicadores da sua fazenda, saiba como evoluir, e comece hoje o seu despertar regenerativo.
Fonte: MilkPoint











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