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Inadimplência no crédito rural volta a se aproximar de recorde

Por: Globo Rural | 2 de julho de 2026

Em maio, a inadimplência do crédito rural para pessoas físicas cresceu levemente e chegou a 7,6%, segundo os dados que o Banco Central divulgou ontem. Na comparação com maio de 2025, quando estava em 1,6%, o nível de endividamento desse universo de produtores cresceu quase cinco vezes.

A inadimplência das pessoas físicas estava em 7,5% em abril, e, dois meses antes, havia batido recorde ao chegar a 7,7%, segundo as informações atualizadas da Estatísticas Monetárias e de Crédito do BC. O índice que mede atrasos acima de 90 dias no pagamento das operações no sistema financeiro a taxas de mercado foi de 13,4% em maio, repetindo o resultado de abril. Já nas taxas reguladas, a inadimplência subiu de 3,3% para 3,4% entre um mês e outro.

Entre as pessoas jurídicas, o nível de inadimplência segue controlado, em 0,8%, longe do pico, de 5,9%, de meados de 2019. Em maio de 2025, o percentual era de 0,5%. Já em maio deste ano, o índice foi de 1% nas operações com taxas de mercado e de 0,5% nos empréstimos com taxas controladas.

O saldo problemático do crédito rural também voltou a crescer em maio. Dados que o Banco Central atualizou ontem mostram que o montante de operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas, que era de R$ 188 bilhões, subiu para R$ 201,8 bilhões. Os valores correspondem a quase 23% da carteira ativa de financiamentos agropecuários nas instituições financeiras; em abril, a fatia era de 21%. O saldo de operações em “curso normal”, segundo a nomenclatura do BC, que era de R$ 707 bilhões em abril, caiu para R$ 686,9 bilhões no mês seguinte.

No conjunto do saldo problemático, cresceu, principalmente, o montante de operações prorrogadas, que passou de R$ 28,5 bilhões para R$ 38,4 bilhões entre abril e maio. Nesse mesmo intervalo, as parcelas em atraso subiram de R$ 15 bilhões para R$ 18 bilhões.

O endividamento do campo tem sido motivo de cobrança sobre o governo e o Congresso. Nesta semana, produtores do Rio Grande do Sul fizeram novas manifestações e participaram de reuniões com parlamentares em Brasília para pressionar pela aprovação do projeto de lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou na terça-feira (30/6) que vai apresentar nos próximos dias uma nova proposta para o programa Desenrola, de repactuação de dívidas, para o campo. O ministro voltou a dizer que o governo tem o compromisso de atender produtores que realmente estão com dificuldades.

“O que não podemos admitir, em nome do sistema financeiro e olhando para a situação dos bancos e fiscal do país, é que a gente faça uma grande renegociação, inclusive para quem não precisa, olhando para a situação do agro como todo”, disse ele à imprensa.

Falta de alcance

No setor produtivo, há receio de que a nova proposta não tenha o alcance necessário para solucionar o problema. No ano passado, o governo editou a medida provisória 1.314/2025 para atender produtores endividados, mas, com as limitações nas regras e a burocracia para a aprovação dos empréstimos, as liberações corresponderam a apenas metade dos R$ 12 bilhões em recursos públicos disponíveis.

Parlamentares ligados ao agro no Congresso defendem uma renegociação ampla, com uso de valores de fundos públicos. Segundo esses congressistas, essa opção não teria impacto direto sobre o orçamento nem comprometeria o arcabouço fiscal.

O assunto foi tema de discussão no colégio de líderes da Câmara dos Deputados nesta semana. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que o escopo do projeto 5.122/2023 ampliou-se após análise no Senado. Na versão inicial, a proposta tinha como foco apenas dívidas de produtores do Rio Grande do Sul, onde quase 40% do crédito rural bancário está com problemas. Aos parlamentares, Motta afirmou que o relator da proposta, o deputado Afonso Hamm (PP-RS), vai construir um texto “combinado” com a presidência para a votação.

Motta reuniu-se ontem com o ministro Dario Durigan para discutir o assunto. Eles agendaram um novo encontro para terça-feira (7/7), com a participação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), para buscarem consenso sobre a renegociação das dívidas.

A equipe econômica, no entanto, está cética sobre a possibilidade de um acordo. Fontes disseram ao Valor que não há espaço para encontrar alternativas para a renegociação das dívidas depois que o Senado aprovou o projeto, no fim de maio, com um texto mais amplo e sem a concordância da Fazenda.

Para integrantes do governo, a reunião de terça-feira seria uma tentativa de pressionar Motta para colocar o projeto em votação. O presidente da Câmara disse a integrantes do Executivo que não pautará o texto até entender o impacto fiscal da medida.