O jovem pecuarista Daniel Steinbruch está literalmente destravando o potencial de uma das raças bovinas com a carne mais valorizada no mundo, o Wagyu. Enquanto o Brasil consolida sua posição como potência global em carne bovina de volume, Daniel opta por um nicho de carnes premium, baseado em genética, controle produtivo e verticalização.
O que começou como um projeto individual passou, nos últimos anos, a ganhar relevância estrutural dentro da cadeia de carnes premium. E, ainda, com o diferencial de ser uma produção que passa pelo crivo do Programa Carne Wagyu Certificada, da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos das Raças Wagyu (ABCBRW).
À frente da Guidara, o empresário apresentou para Forbes Agro exclusivamente seus números. A produção de carne Wagyu certificada saltou de 191,4 toneladas em 2024, com faturamento de R$ 18,3 milhões, para 380,8 toneladas em 2025, alcançando R$ 32,3 milhões.
Em volume o crescimento foi quase o dobro e a receita representou um salto de 76,50% na comparação de 2024 e 2025. Para este ano de 2026, a expectativa é atingir 534 toneladas de carne Wagyu e receita de R$ 40,2 milhões.
“Este programa é fundamental porque ele audita, mede e dá credibilidade ao produto final”, diz Daniel.
Quando decidiu apostar no Wagyu, ainda em meados dos anos 2000, o movimento soava excêntrico até para os padrões da pecuária brasileira.
Criador desde 2006, na fazenda Querência, em Mogi Mirim, a cerca de 160 quilômetros da capital paulista, e dono do próprio frigorífico desde 2013, a Guidara, Daniel escolheu trabalhar com uma raça japonesa, de genética única para uma carnes mais macias e suculentas do mundo, em um país historicamente orientado à escala e à arroba commodity.
“Hoje detemos 85% do market share desses animais cruzados e os números mostram que quando os dois modelos, de produção de bovinos puros e cruzados, atuam de forma complementar. O resultado aparece em escala, padrão e previsibilidade”, pontua.
Reconhecido na lista Forbes Under 30 em 2022, Daniel construiu sua trajetória à margem da pecuária convencional da família Steinbruch. Seu pai, Ricardo Steinbruch, é atual presidente do conselho de administração do grupo têxtil Vicunha, um dos maiores do país, e também presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
Os números que explicam a virada

Os dados do jovem empresário estão em sintonia com os demais produtores de Wagyu no Brasil. Em 2025, o Programa Carne Wagyu Certificada, conduzido e auditado pela ABCBRW, registrou o abate de 2.272 bovinos, entre animais puros e cruzados. O volume representa um crescimento de 29,9% em relação a 2024, quando o total foi de 1.749 cabeças.
Do total abatido em 2025, 1.362 animais vieram do cruzamento industrial, enquanto 910 eram Wagyu puro. A mudança no perfil da oferta indica que o segmento começa a ganhar escala sem perder critérios técnicos, algo raro em um mercado historicamente pulverizado.
Hoje, estima-se que existam cerca de 15 mil bovinos com sangue Wagyu no Brasil, somando animais puros e cruzados. Dentro desse universo ainda restrito, a Guidara que detém grande participação dos bovinos Wagyu cruzados certificados consolida sua posição a partir de um modelo que separa produção, auditoria e indústria.
Processo de sofisticação da carne premium

A aposta crescente dos pecuaristas como Daniel na produção de carne premium tem raiz direta na mudança do comportamento do consumidor brasileiro.
Ao longo da última década, a carne bovina deixou de ser vista apenas como proteína básica e passou a ocupar um espaço mais sensorial na alimentação, associado a sabor, maciez, suculência, origem e experiência.
Os consumidores passaram a distinguir cortes, raças, sistemas de produção e padrões de acabamento, criando um mercado disposto a pagar mais por atributos que antes eram pouco percebidos ou valorizados.
Esse novo olhar do consumidor pressiona a porteira para dentro. Para atender a um público mais exigente, o pecuarista precisou investir em genética, nutrição, manejo, bem-estar animal e encurtamento do ciclo produtivo.
Este tem sido o caminho percorrido por Daniel, que até buscou modelos de produção na Austrália, país que construiu um dos programas de melhoramento genético de Wagyu mais avançados do mundo em sistemas produtivos ocidentais.
A estratégia não era replicar o modelo à realidade brasileira, preservando o marmoreio como atributo central, ao mesmo tempo em que ajustava manejo, confinamento e acabamento de carcaça à lógica econômica local.
Essa adaptação foi determinante para aproximar a carne Wagyu do consumidor brasileiro e criar uma base produtiva sustentável.
De criador a articulador de mercado
Ao estruturar esse arranjo, Daniel Steinbruch deixou de ser apenas um criador de uma raça exótica para ocupar o papel de articulador de mercado.
Em um setor historicamente ultracomoditizado, sua trajetória mostra que a combinação entre genética, estratégia industrial e governança produtiva pode destravar valor, previsibilidade e escala, mesmo no território mais extremo da carne bovina.











