Com um pouco mais de um ano à frente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o advogado Roberto Perosa, 47 anos, lidera a indústria exportadora de carne bovina em um momento singular da história recente do setor de proteína animal.
O setor entra em 2026 no ápice de sua performance econômica, mas sob um ambiente internacional mais complexo, marcado por barreiras comerciais, tensões geopolíticas e exigências regulatórias crescentes. A combinação entre recordes e restrições transforma o novo ciclo em um teste de maturidade institucional e estratégica da cadeia.
“O Brasil atingiu um patamar que poucos países no mundo conseguiram alcançar ao mesmo tempo: escala, competitividade e presença global. Isso é uma conquista enorme, mas também aumenta a responsabilidade e o nível de cobrança sobre o setor”, afirma Perosa.
Com especializações em Relações Governamentais, Direito Internacional, Ética Empresarial e Responsabilidade Social pela Fundação Getúlio Vargas e Insper, além de passar pelo comando da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Perosa, ainda assim, confia na manutenção de números de 2025 para 2026.
O país encerrou 2025 com o maior desempenho já registrado nas exportações de carne bovina. Ao longo do ano, os embarques somaram 3,5 milhões de toneladas, crescimento de 20,9% em relação a 2024, enquanto a receita alcançou US$ 18,03 bilhões (R$ 99,2 bilhões, segundo a cotação atual), avanço de 40,1% na comparação anual.
Os dados, apurados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e compilados pela Abiec, confirmam uma sequência inédita de recordes mensais, elevando a carne bovina a um novo patamar de geração de divisas e relevância estratégica para a balança comercial brasileira.
A projeção internacional da carne ganhou inclusive um novo status, com o Brasil ocupando a posição, pela primeira vez, de maior produtor mundial de carne bovina.
“O Brasil se tornou, com antecipação de dois anos, o maior produtor mundial de carne bovina. Além de já ser, há alguns anos, o maior exportador mundial.”
Para Perosa, o salto não foi apenas quantitativo. A valorização dos preços médios, a ampliação do número de destinos e o ganho de eficiência industrial e logística explicam o desempenho. Para Perosa, o resultado também revela um amadurecimento do setor.
“Conseguimos crescer sem desorganizar o mercado interno. Cerca de 25% da produção segue para exportação, enquanto o restante permanece abastecendo o consumo doméstico com normalidade. Esse equilíbrio não acontece por acaso”, diz.
Sob sua gestão, a Abiec deixou de atuar exclusivamente como representante da indústria para assumir o papel de articuladora estratégica do setor. A entidade passou a operar como um centro de inteligência econômica e diplomática, antecipando riscos, enfrentando barreiras não tarifárias e sustentando tecnicamente a presença brasileira em mercados cada vez mais regulados.
“Hoje, a disputa não é apenas por preço. É regulatória, sanitária, ambiental e, muitas vezes, política”, resume Perosa.
O choque externo após o auge

É justamente após esse ciclo recorde que o ambiente internacional se torna mais adverso. A adoção de salvaguardas pela China, principal destino individual da carne bovina brasileira, reduziu de forma significativa o volume autorizado de importação, retirando do mercado algo próximo a 600 mil toneladas potenciais. O movimento obrigou a indústria a reorganizar rapidamente seus fluxos comerciais.
Na avaliação de Perosa, o impacto vai além do comércio exterior. “Uma restrição desse porte pressiona preços, compromete margens e posterga investimentos ao longo de toda a cadeia, do produtor à indústria”, afirma.
Segundo ele, a atuação da Abiec tem sido mitigar os efeitos da medida por meio do diálogo técnico com o governo brasileiro e autoridades chinesas, ao mesmo tempo em que acelera a diversificação de mercados.
O peso do tarifaço americano
Outro fator relevante na leitura estratégica de 2026 é o efeito prolongado da política comercial dos Estados Unidos. O tarifaço adotado durante o governo de Donald Trump continua limitando o potencial brasileiro naquele mercado, mesmo em um ano de exportações recordes.
“Até meados do ano passado, a expectativa era de volumes muito maiores para os Estados Unidos. A tarifa reduziu nossa competitividade e nos obrigou a redirecionar produto para mercados menos rentáveis”, avalia Perosa.
Para ele, o impacto foi economicamente relevante. A projeção eram exportações entre 400 mil a 500 mil toneladas. Foram negociadas efetivamente 270 mil toneladas para os Estados Unidos. A realocação foi necessárias, mas para mercados que não pagam tanto quando os americanos.
Diversificação como resposta estrutural

Diante desse cenário, a estratégia defendida pela Abiec para 2026 se ancora na diversificação geográfica e no uso mais sofisticado do portfólio exportado.
Mercados da Ásia, do Sudeste Asiático, do Oriente Médio e economias emergentes ganham protagonismo, enquanto parceiros tradicionais como União Europeia e Estados Unidos seguem relevantes, ainda que sob condições mais restritivas.
“A China é insubstituível em volume, mas não pode ser o único pilar da estratégia brasileira”, afirma Perosa.
Segundo ele, a construção de demanda para cortes industriais, miúdos e produtos de maior valor agregado em outros destinos é fundamental para reduzir a concentração e aumentar a resiliência do setor. Esse redesenho comercial tem reflexos diretos no mercado interno, ao aliviar a pressão sobre os cortes mais consumidos no país.
Promoção, reputação e sustentabilidade
A promoção internacional da carne bovina brasileira permanece como um dos eixos centrais da atuação da Abiec Em parceria com a ApexBrasil e o governo federal, a entidade intensificou a presença em feiras globais e ações institucionais, com foco não apenas em volume, mas em posicionamento de longo prazo.
Nesse contexto, rastreabilidade, controle de fornecedores e monitoramento socioambiental deixaram de ser tratados como obrigações defensivas e passaram a integrar a lógica econômica do setor.
“Os mercados mais exigentes querem respostas objetivas. Sustentabilidade hoje é acesso a mercado”, afirma Perosa.
Um ano de inflexão
A travessia de 2026 ocorre sob maior protecionismo, pressão regulatória e competição geopolítica. Ainda assim, a avaliação predominante da indústria é que o Brasil segue sendo o único país com capacidade estrutural para responder ao crescimento da demanda global por proteína bovina.
Para Perosa, o desafio agora é transformar o recorde em resiliência. “O setor mostrou do que é capaz em 2025. O próximo passo é garantir previsibilidade, sustentabilidade econômica e acesso a mercados em um cenário internacional muito mais complexo”, conclui.
Fonte: Forbes pecuária











