A produção de leite é um dos principais segmentos do agronegócio brasileiro, desempenhando papel essencial na economia nacional por gerar emprego, renda e contribuir significativamente para a segurança alimentar (Brainer et al., 2022). Segundo o IBGE (2023), o Brasil produziu cerca de 35,4 bilhões litros de leite, demonstrando ser uma atividade bastante importante para o país.
Nos últimos anos, os custos de produção na pecuária aumentaram consideravelmente. Além disso, as crescentes demandas por sustentabilidade e bem-estar animal, tornaram-se questões centrais na produção leiteira. Para enfrentar esses desafios, pesquisadores e empresas têm investido em soluções tecnológicas, como a inteligência artificial (IA), que se destaca na melhoria da eficiência produtiva e gestão inteligente do rebanho (Avila, 2022). A IA surge como uma ferramenta muito promissora para superar os desafios da produção leiteira, pois permite a análise de um grande volume de dados e auxilia na tomada de decisões.
A inteligência artificial é um conceito da área da computação e consiste na capacidade de máquinas, softwares e outros sistemas de processar dados externos, aprender com esses dados, interpretá-los e utilizar o aprendizado para resolver tarefas específicas e atingir objetivos determinados (Barbosa e Portes, 2019). Na pecuária leiteira, essa tecnologia está presente em sensores, câmeras, softwares e dispositivos automatizados que otimizam o manejo dos animais e gestão das fazendas.
Principais aplicações da IA na pecuária leiteira
Monitoramento Animal por Sensores:
Os sensores de monitoramento, acoplados ou não aos animais, desempenham um papel fundamental na análise do comportamento e saúde do rebanho. Alguns exemplos incluem:
- Microfones: Uma questão muito debatida atualmente é como estimar de forma precisa a ingestão de forragem pelo animal, pois é algo complexo e oneroso. Anteriormente, a coleta manual de dados era o método mais comum. Nesse sentido, pesquisadores utilizaram microfones acoplados próximo a boca do animal para capturar sons de mastigação e mordida. A partir da frequência sonora, desenvolveram um sistema que consegue detectar os eventos de pastejo com precisão e por longo período (Clapham et al., 2011).
Figura 1: Letra A: gravador que armazena os sons, Letra B: microfone que registra os sons.
Fonte: Clapham et al., 2011.
- Acelerômetros: Monitoram o tempo de pastejo e a movimentação dos animais.
- Sensores Climáticos: São distribuídos na propriedade para monitoramento climático, coletando dados de temperatura, umidade e precipitação. O que auxilia no manejo dos animais, principalmente no quesito estresse térmico.
Ordenha automatizada
A automação na ordenha revolucionou a produção leite, permitindo:
- Que as vacas acessem livremente o sistema, escolhendo o momento ideal para serem ordenhadas, o que reduz o estresse e melhora o bem-estar animal.
- Procedimentos automatizados, como reconhecimento dos tetos, fazem a higienização, acoplamento das teteiras e mensuração da produção leiteira.
- Coleta de dados em tempo real, permitindo que produtor tenha acesso a todas as informações sobre a produção, a qualidade do leite e outros indicadores zootécnicos.
Essa tecnologia inclui vários fatores importantes, diminuição da mão de obra, eficiência e bem-estar.
Manejo de pastagens
Um dos desafios enfrentados na produção atual é o manejo eficiente das pastagens., principalmente na previsão de produtividade. As principais ferramentas utilizadas são:
- Imagens de satélites: Modelos baseados em imagens de satélite permitem o monitoramento e previsão da disponibilidade de forragem para os meses seguintes, além de fornecerem informações sobre a qualidade daquela forragem (Wang et al., 2019).
- Drones: Monitoram o estado da forragem, otimizam o rodízio das pastagens. No manejo, os drones permitem decisões imediatas, identificando quais áreas de pasto estão prontas para uso, enquanto as imagens de satélite são mais indicadas para análises preditivas (Gonçalves, 2023).
Nutrição de precisão
Dentro da fazenda, a nutrição representa um dos maiores custos da produção, podendo atingir até 70% do total. Por isso, um planejamento eficiente é essencial para evitar desperdícios e garantir que a alimentação atenda exatamente às exigências dos animais.
Nesse contexto, a nutrição de precisão tem sido amplamente utilizada, baseando-se em sistemas automatizados que fornecem a quantidade exata de alimento, de acordo com as necessidades específicas de cada animal. O uso dessas tecnologias otimiza o consumo, reduz desperdícios e torna a produção mais eficiente e sustentável.
Blockchain e rastreabilidade
A cadeia de abastecimento de leite é complexa, pois envolve várias etapas desde a produção até chegar no consumidor final. Podemos citar os produtores de leite, as cooperativas, as unidades de processamento, os atacadistas e varejistas (Rocha et al., 2024). Nesse contexto, a tecnologia blockchain se destaca como uma inovação promissora, unindo rastreabilidade, transparência e a segurança alimentar.
Dentre as empresas que já utilizam essa tecnologia, a Nestlé adotou o blockchain para rastreabilidade do leite, proporcionando maior transparência em todas as etapas da cadeia produtiva (Pirus, 2019). Os principais benefícios do blockchain são:
- Maior acesso à informação: Qualquer indivíduo pode verificar a procedência e qualidade dos produtos.
- Dificulta adulterações, pois toda a cadeia é rastreada.
- Maior segurança alimentar.
- Valorização do produto, pois práticas de rastreabilidade é diferencial de mercado.
Entretanto, a implementação do blockchain ainda enfrenta limitações, principalmente para pequenos produtores, devido ao alto custo e também demanda computadores especializados. Apesar disso, essa tecnologia demonstra bons resultados e tende a se consolidar no mercado.
A IA como solução para a pecuária de leite
Portanto, a inteligência artificial veio para contribuir, oferecendo diversas aplicações que contribuem diretamente para a melhoria da eficiência produtiva. Ela possibilita a seleção dos melhores animais, a identificação precoce de doenças e o aprimoramento do desempenho geral do rebanho.
Contudo, para que essas tecnologias sejam efetivas, é essencial realizar uma coleta de dados precisa e interpretá-los de maneira adequada. Sem uma análise correta, os dados não geram benefícios reais.
Dessa forma, a Zootecnia de precisão não se limita à simples coleta de dados, mas envolve a capacidade de interpretá-los e tomar decisões estratégicas na produção. Com essa abordagem, será possível potencializar ainda mais a produção e o bem-estar animal na pecuária leiteira brasileira.
Autores:
Luiz Felipe Diniz Aniceto e Silva
Marco Antônio Pereira da Silva
Guilherme Henrique Salgado
Guilherme Antônio Alves da Silva
Fonte: Marco Antônio Pereira da Silva e Guilherme Henrique Salgado
Reprodução do site da MilkPoint