Na delicada dinâmica da nutrição de vacas leiteiras, o objetivo não se resume a produzir mais leite. Como alimentamos vacas prenhes e o que elas recebem na dieta também importa para o desenvolvimento do bezerro que elas estão carregando.
Segundo Billy Brown, professor assistente do Departamento de Ciências e Indústria Animal da Kansas State University, os pesquisadores estão apenas começando a compreender o impacto da nutrição materna sobre a produtividade ao longo da vida das suas bezerras.
Durante apresentação na Cornell Nutrition Conference de 2024, Brown discutiu avanços recentes que indicam caminhos para que vacas leiteiras gerem não apenas bezerros saudáveis, mas animais com melhor desempenho ao longo de toda a vida produtiva, seja com destino ao confinamento ou à sala de ordenha.
A formação desses bezerros mais eficientes depende de uma série de eventos biológicos que ocorrem em diferentes fases do desenvolvimento embrionário e fetal, muitos ainda não totalmente compreendidos. Entre os fatores críticos, Brown destaca a massa placentária, o fluxo sanguíneo e o transporte de nutrientes para o feto.
Os efeitos da nutrição materna também podem ocorrer em nível celular. Brown explica que a epigenética envolve alterações que modulam a expressão do DNA, influenciando quais funções celulares serão ativadas. Ao estimular, por meio da nutrição, mecanismos que desencadeiam essas mudanças, características como crescimento, marmoreio e produtividade da glândula mamária em seus bezerros podem ser positivamente afetadas.
Esse tipo de abordagem vem sendo estudado há décadas na bovinocultura de corte. Diversos trabalhos demonstram que vacas suplementadas com energia ou proteína durante a gestação produzem bezerros com maior peso corporal do nascimento ao abate, além de novilhas que atingem a puberdade mais precocemente. Estudos adicionais indicam melhorias estatísticas em marmoreio, grau de qualidade da carcaça e área de olho de lombo em bezerros oriundos de vacas suplementadas, um resultado relevante diante do aumento da participação de bezerros de origem leiteira destinados à produção de carne.
No entanto, na pecuária leiteira, o tema ainda não foi explorado com a mesma profundidade. Brown observa que houve um crescimento expressivo de pesquisas avaliando os impactos negativos do estresse térmico durante a gestação sobre o desempenho dos bezerros, enquanto intervenções nutricionais nas vacas receberam atenção comparativamente menor.
Os estudos já conduzidos indicam que simplesmente aumentar o fornecimento de alimento não é uma solução direta. Embora o peso ao nascer de bezerros leiteiros aumente cerca de 2,04 kg a cada meio ponto adicional na condição corporal das vacas (em uma escala de 5 pontos), animais excessivamente gordos, especialmente novilhas de primeira cria, apresentam maior risco de distocia e desafios metabólicos durante a lactação.
Dados de outras espécies reforçam essa preocupação, segundo Brown Vacas com ingestão excessiva de energia na gestação podem gerar efeitos negativos de longo prazo sobre a capacidade do neonato de regular o consumo alimentar e a composição corporal. Esses impactos, como excesso de condição corporal, maior incidência de doenças metabólicas e redução da produção de leite, tornam-se ainda mais evidentes na segunda geração de vacas superalimentadas.
Outro ponto relevante é que alta produção de leite não garante, necessariamente, a transmissão desse potencial genético aos seus descendentes. Estudos indicam que, paradoxalmente, bezerros de vacas altamente produtivas podem ser prejudicados. Brown explica que, embora essas vacas apresentem maior mérito genético, alterações epigenéticas decorrentes da competição por nutrientes entre o feto e a glândula mamária podem limitar o potencial produtivo dos descendentes.
Diante disso, encontrar o equilíbrio adequado entre oferta insuficiente e excessiva de energia e proteína permanece um desafio. Para Brown, avanços significativos podem surgir a partir do refinamento das dietas, com atenção aos detalhes nutricionais.
Resultados de pesquisas mostram que a suplementação com colina protegida de rúmen melhora o desempenho da progênie em diversos parâmetros, como peso ao nascer, ganho de peso pré-desmame, eficiência alimentar, marmoreio, deposição de gordura renal, pélvica e cardíaca, além da sensibilidade à insulina. Aminoácidos protegidos de rúmen, como metionina e lisina, também apresentaram efeitos positivos sobre crescimento e ganho de peso, assim como a suplementação com ácidos graxos ômega-3.
Brown avalia que esses e outros suplementos podem permitir um ajuste mais preciso das dietas de vacas em lactação, oferecendo um pacote nutricional mais adequado tanto para a vaca quanto para o bezerro em desenvolvimento.
Ele ressalta, contudo, que mais pesquisas são necessárias. À medida que esse corpo de conhecimento avança, o futuro da pecuária leiteira pode envolver uma preparação mais intencional dos bezerros para o sucesso produtivo, por meio de estratégias de manejo nutricional das vacas durante a gestação.
Fonte: Dairy Herd Management
Tradução: MilkPoint











