O estresse térmico é um grande desafio na produção leiteira brasileira. As altas temperaturas, combinadas com a umidade, afetam negativamente o bem-estar das vacas, reduzindo a produção de leite, comprometendo a eficiência reprodutiva e o bem-estar dos animais.
Além de adequações estruturais como uso de ventiladores e aspersores, sistemas silvipastoris e práticas de ajustes de manejo como frequência e horários de alimentação e descanso, a suplementação de cromo surge como uma estratégia adicional no enfrentamento do estresse térmico. Seus benefícios podem incluir a redução da temperatura corporal e da taxa respiratória, maior produção e qualidade do leite, melhor estado antioxidante e maior eficiência metabólica.
Como o cromo atua no organismo das vacas?
Os efeitos potenciais na mitigação do estresse metabólico em vacas leiteiras da suplementação cromo são bastante conhecidos. O cromo atua no metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas ao melhorar a sensibilidade à insulina. Isso permite uma melhor captação de glicose pelas células e uma maior eficiência no uso de energia, fatores essenciais para manter o desempenho em condições adversas, como o estresse térmico.
O cromo influencia parâmetros bioquímicos sanguíneos em vacas leiteiras. Em recente artigo, Malik et al. (2024) ressaltaram que, embora a glicemia e a insulina sanguínea não tenham apresentado alterações significativas entre vacas controle e vacas suplementadas com cromo, os níveis de glucagon foram significativamente maiores no grupo suplementado.
O glucagon é um hormônio que estimula a liberação de glicose no sangue, especialmente em situações de baixa glicemia ou alta demanda energética. Ele atua promovendo a gliconeogênese, ou seja, a produção de glicose a partir de gorduras e proteínas. O aumento dos níveis de glucagon em vacas suplementadas com cromo sugere um papel potencial desse mineral na regulação do metabolismo energético, auxiliando na mobilização de reservas energéticas, mesmo sem modificar os níveis de glicose e insulina no sangue. Essa modulação pode representar uma estratégia promissora para melhorar a resiliência de vacas em condições de estresse calórico, otimizando o uso de reservas energéticas, mantendo o equilíbrio metabólico e sustentando a produção de leite.
Controle da temperatura corporal e redução do estresse metabólico
Embora existam poucos estudos focados especificamente em vacas leiteiras, algumas pesquisas sugerem que, quando administrado em doses adequadas, o cromo pode ajudar a manter a saúde e o desempenho das vacas. Contudo, a suplementação ideal depende de variáveis como o tipo de cromo utilizado e as condições ambientais. Aqui, destacamos dois estudos relevantes que encontramos: um realizado com vacas Holandesas e outro com Girolando.
No estudo conduzido por Wang et al. (2023), com vacas Holandesas em meio de lactação sob estresse térmico, os pesquisadores investigaram os efeitos da suplementação com propionato de cromo (CrP) e os resultados mostraram que a suplementação com CrP, especialmente nas doses de 4 a 8 mg/d de Cr por vaca, contribuiu para a redução significativa da taxa de respiração e da temperatura retal, fatores diretamente relacionados ao controle do estresse térmico. Além disso, a suplementação resultou em aumento na ingestão de matéria seca, na produção de leite e na produção de lactose. Também foi observado um aumento no status antioxidante, com o aumento das concentrações de enzimas que podem ajudar na mitigação do estresse metabólico. Esses achados reforçam o potencial do cromo como uma estratégia eficaz para reduzir os impactos do estresse térmico em vacas leiteiras. Porém, são necessárias mais investigações para determinar a dose e forma ideais de suplementação.
No estudo realizado com vacas Girolando, no Brasil, Ribeiro (2020) investigou os efeitos da suplementação com cromo orgânico em vacas em lactação sob estresse calórico. Embora a suplementação não tenha alterado o consumo de matéria seca, a produção de leite ou os parâmetros reprodutivos, foi observada uma redução nas concentrações de glicose no plasma e um aumento na relação insulina:glicose durante o estresse térmico. As vacas suplementadas também mantiveram a temperatura vaginal mais baixa em comparação com as vacas do grupo controle. A suplementação com cromo também modulou a expressão gênica associada ao metabolismo da glicose no fígado, sugerindo que o cromo pode desempenhar um papel importante na regulação glicêmica e no metabolismo das vacas sob estresse térmico, contribuindo para a melhoria da saúde e potencial melhora do desempenho produtivo.
Portanto, ambos os estudos demonstram que a suplementação com cromo tem perspectivas de ajudar vacas leiteiras a manter uma temperatura corporal mais próxima do normal, mesmo em condições de estresse térmico. Esses efeitos estão relacionados à melhoria do metabolismo da glicose e à redução de sinais típicos de estresse metabólico, como a elevação da temperatura retal e a aceleração da taxa respiratória.
Aumento da produção de leite e melhoria na qualidade
Enquanto ainda são poucos os estudos sobre o impacto da suplementação de cromo no estresse calórico, no que diz respeito à suplementação de cromo e produção de leite, no entanto, há diversos estudos apontando sua importância. A suplementação desse mineral está associada a um aumento na ingestão de matéria seca, o que contribui para maior produção de leite, mesmo em condições de estresse térmico.
Uma meta-análise realizada por Malik et al. (2023) investigou os efeitos da suplementação de cromo (Cr) na ingestão de matéria seca, produção de leite e composição do leite em vacas leiteiras. Os resultados, avaliando dezenas de estudos, mostraram que as vacas suplementadas com cromo apresentaram um aumento significativo na ingestão de matéria seca, com um aumento médio de 0,72 kg/dia em comparação às vacas não suplementadas. O modelo de regressão indicou que o consumo de MS aumentou significativamente em 0,9 g/kg de peso corporal e em 80,5 g para cada aumento de 1 mg de suplemento de Cr. A suplementação também levou a um aumento de 1,20 kg/dia na produção de leite. O aumento na produção de leite foi proporcional à dose de cromo administrada, com um incremento de 122,4 g de leite/dia para cada 1 mg adicional de cromo na dieta. A análise indicou ainda que a fase de suplementação e a forma do cromo influenciaram os resultados, com as formas complexadas com aminoácidos e metionina do cromo resultando em aumentos mais significativos na produção de leite. A suplementação de cromo também foi associada a um aumento na eficiência da utilização de energia, com um modelo de regressão indicando que a produção de leite aumentava 2,3 g/dia para cada kg de peso corporal e 122,4 g/dia para cada aumento de 1 mg de cromo suplementado.
Suplementar ou não?
Os estudos disponíveis indicam que a suplementação com cromo pode ser uma estratégia eficaz para mitigar os impactos do estresse térmico em vacas leiteiras. Os benefícios incluem a redução da temperatura corporal, melhoria no metabolismo glicêmico, aumento da ingestão de matéria seca e maior produção de leite, especialmente em condições adversas de calor.
Entretanto, a suplementação ideal depende de fatores como a dose, a forma do cromo e as condições ambientais. Embora os resultados sejam promissores, mais pesquisas são necessárias para definir os parâmetros exatos de uso. Nesse sentido, é fundamental a mobilização da pesquisa e da indústria de nutrição animal para buscar essas respostas e garantir que o cromo seja disponibilizado de forma acessível e com qualidade, permitindo que os produtores utilizem essa solução de maneira eficaz.
Portanto, a suplementação com cromo deve ser vista como uma oportunidade de complemento às práticas de manejo já estabelecidas, a exemplo da ventilação, horários de alimentação e descanso, e sistemas silvipastoris. Quando integrada às práticas já consolidadas de manejo, a suplementação de cromo pode se tornar uma ferramenta importante para enfrentar o estresse térmico, com benefícios tanto para o bem-estar dos animais quanto para a rentabilidade das propriedades leiteiras. A adoção dessa estratégia pode representar um avanço significativo na produção leiteira, garantindo maior produtividade e sustentabilidade no setor.
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Fonte: MilkPoint