Um estudo da Universidade de Guelph, do Canadá mostrou que selecionar para a característica DPR (taxa de prenhez das filhas) pode melhorar a fertilidade sem comprometer a produção de leite.
A otimização da genética do rebanho leiteiro tem sido um foco para pesquisadores, produtores e indústria de laticínios, impulsionada pelos objetivos duplos de aumentar a produção de leite e melhorar a fertilidade geral do rebanho. À medida que a demanda global por produtos lácteos continua a aumentar, a pressão para produzir vacas de alto rendimento tem aumentado. No entanto, essa busca muitas vezes traz consigo um desafio significativo: aumentar a produção de leite sem comprometer a eficiência reprodutiva.
Para terem bons resultados, as fazendas leiteiras modernas, que tem parições distribuídas ao longo do ano, precisam ter programas reprodutivos que funcionem bem e permitam taxas de reposição suficientes, produção de leite ideal e uma renda consistente durante o ano todo.
A infertilidade das vacas lactação representa um grande desafio para os produtores de leite. O desempenho reprodutivo reduzido tem sido associado a declínios nos retornos econômicos devido à redução da produção de leite por vaca por dia, menor produção de novilhas de reposição e aumento do descarte.
Historicamente, a alta produção de leite tem sido associada a uma diminuição na fertilidade de vacas em lactação. Essa diminuição na fertilidade pode ser devido a fatores genéticos, pois outras características (como produção de leite e características de conformação) foram priorizadas em detrimento da fertilidade na seleção do gado leiteiro.
O aumento da produção individual de leite foi alcançado em parte devido a melhorias no manejo, bem como à seleção genética intensiva. Esse aumento na produção de leite também foi associado à redução do desempenho reprodutivo, o que se tornou uma grande preocupação para os produtores e a indústria de laticínios. No entanto, a interpretação da associação observada entre maior produção de leite e baixo desempenho reprodutivo exigi uma avaliação mais crítica, pois tem se mostrado uma relação complexa. Além disso, práticas inadequadas de manejo de vacas leiteiras de alta produção podem contribuir significativamente para a incapacidade das vacas leiteiras de conceber e manter a gestação, independentemente da produção de leite.
Esse desafio coloca uma questão crucial para a indústria de laticínios: podemos selecionar vacas que se destaquem tanto na produção de leite quanto na fertilidade? Os avanços na pesquisa genética, juntamente com a integração de tecnologias de precisão para a produção de leite, oferecem caminhos promissores para alcançar esse equilíbrio.
Com a intensificação do uso da seleção genômica, os produtores agora podem identificar e propagar características desejáveis com mais precisão do que nunca. Além disso, a inclusão de características relacionadas à fertilidade em programas de melhoramento está ganhando força, com o objetivo de criar um rebanho leiteiro mais sustentável e lucrativo.
O objetivo do estudo realizado na Universidade de Guelph – Campus de Ridgetown, foi avaliar a relação entre mérito genômico da característica DPR (gDPR), mérito genômico para produção de leite (gLeite) e prenhez na primeira IA e perdas de gestação. Um grupo de 6.739 vacas Holandesas (1ª lactação: n = 2.636; 2ª lactação: n = 2.057; 3ª lactação: n = 2.046) foi incluída no estudo. Essas vacas foram submetidas a um protocolo de IATF para que o primeiro serviço ocorresse por volta de 60 dias em lactação. Os diagnósticos de gestação foram realizados nos dias 32 e 60 pós-IATF, por exame de ultrassonografia. A perda de gestação foi definida como uma vaca gestante no dia 32 que não estava gestante no dia 60.
Para a avaliação genômica, foram coletadas amostras de pelo da vassoura da cauda e as vacas foram genotipadas usando uma plataforma SNP.
As vacas foram agrupadas em quatro categorias com base na mediana para a gDPR e gLeite:
baixo gDPR e baixo gLeite (LgDPR e LgMilk)
alto gDPR e baixo gLeite (HgDPR e LgMilk)
baixo gDPR e alto gLeite (LgDPR e HgMilk)
alto gDPR e alto gLeite (HgDPR e LHgMilk)
Os resultados indicaram uma correlação negativa leve entre gDPR e gLeite. A gestação por IATF foi significativamente influenciada pela combinação de gDPR e gLeite, com maiores taxas de prenhez observadas em grupos com alta gDPR (Figura 1). Além disso, vacas com maior gDPR exibiram menores taxas de perda de gestação em comparação com os grupos de baixa gDPR. Curiosamente, a produção de leite no dia 60 de lactação foi maior em vacas com alto gLeite, independentemente de seu status de gDPR (Figura 2).
Esses achados sugerem que a seleção de gDPR e gLeite altos pode potencialmente aumentar a eficiência reprodutiva e a produção de leite em rebanhos leiteiros. O estudo fornece evidências convincentes de que marcadores genéticos como o gDPR podem ser fundamentais para melhorar os resultados reprodutivos sem comprometer a produção de leite, abrindo caminho para estratégias de reprodução mais equilibradas e sustentáveis em gado leiteiro.
Este texto é parto do texto publicado pelo Prof. Dr. Augusto M. L. Madureira, em 01/09/2024 na revista Progressive Dairy.
POR RICARDA MARIA DOS SANTOS e JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS
Fonte: Portal do Milkpoint