Situação e principais desafios da produção de leite no Brasil

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A agropecuária brasileira transformou-se pelo empreendedorismo dos produtores, pelas políticas públicas de apoio e pelo desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação autóctone. Esta última, além de poupar terra pelos contínuos ganhos de produtividade, tem substituído a força de trabalho por meio da mecanização, automação e da robotização da produção, necessitando cada vez menos de trabalhadores pouco qualificados.

O Brasil tem uma expressiva produção de leite que atingiu mais de 35,4 bilhões de litros em 2023, figurando como o sexto maior produtor mundial. A produção de leite brasileira é uma atividade econômica muito expressiva, podendo ser encontrada em 98% dos municípios do território nacional, com mais de 1 milhão de propriedades empregando perto de 4 milhões de pessoas e gerando mais de R$67,8 bilhões anuais, somente no setor primário. A produção de leite é muito heterogênea, variando em tamanho do empreendimento, tipo e nível de intensificação do sistema de produção, perfil do produtor, níveis de produtividade dos fatores de produção e forma e estrutura de acesso ao mercado e aos insumos. Essas variáveis diferem enormemente de patamar dependendo da região de localização da propriedade rural, formando com isso, uma matriz de heterogeneidade e complexidade muito grande.
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O Censo Agropecuário do IBGE (2017) mostrou que produtores com menos de 200 litros/dia, num total de 1,1 milhão (93%), produziram menos da metade da produção de leite (47%). Por outro lado, 87,5 mil produtores (7%) com mais de 200 litros/dia produziram mais de 53% da produção, sendo que os 2% dos produtores com mais de 500 litros/dia, produziram 30% da produção nacional. Essa estratificação da produção mostra a baixa contribuição dos produtores de pequena escala, em termos de abastecimento do mercado nacional e um enorme desafio econômico e social para o país e, consequentemente, para uma agenda de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação nacional.

Tabela 1. Estratos de produção de Leite (2006 e 2017).

Made with Flourish

Fonte: IBGE – Censo Agropecuário 2006 e 2017.

Outra questão a ser evidenciada é a dinâmica em curso na produção de leite no Brasil. Os dados da Pesquisa Pecuária Municipal (IBGE/ PPM), mostram que a produção de leite cresceu 3,2% de 2013 até 2023, estando praticamente estável ao longo do período. A PPM apresenta ainda o número de vacas ordenhadas que decresceu 31,7%, passando de 23 milhões para 15,7 milhões de cabeças, enquanto a produtividade animal cresceu 51,4%, passando de 1.492 para 2.259 litros/vaca/dia. Já os dados do Censo Agropecuário de 2017, na comparação com o de 2006, mostra uma redução de 174,5 mil propriedades leiteiras. São evidentes a concentração da produção nas propriedades de maior escala de produção e a redução do número de produtores com menor escala. A redução do número total de produtores foi de 13%, passando de 1,35 milhão para 1,18 milhão de produtores, mas foi de 31% a redução da produção com menos de 10 l/dia, conforme Tabela 1. Diante disto, o aumento da produção só pode ser explicado pelo aumento da produtividade, e esta, pela aquisição e domínio de tecnologias mais produtivas, mais rentáveis e mais sustentáveis.

Ainda no que se refere à concentração da produção, ela ocorre também em termos regionais. Os mapas da figura 1 mostram, nas áreas mais escuras as maiores concentrações da produção nos anos de 1990 e 2023. Considerando que a esmagadora maioria dos municípios brasileiros produzem leite, essa concentração espacial da produção traz novos e grandes desafios no que se refere a inclusão produtiva de um enorme contingente de produtores e de municípios que produzem leite, ocupam a terra e geram renda, emprego e impostos locais.

Figura 1. Mapas da concentração da produção 1990 e 2022.

Mapas da concentração da produção 1990 e 2022

Fonte: CILeite – Embrapa Gado de Leite.


A produção de leite no Brasil, apesar de ser uma atividade de grande importância econômica e social, enfrenta diversos desafios que impactam diretamente a sua eficiência e a renda dos produtores. Entre os principais problemas, podemos destacar:

1. Baixa produtividade: notadamente devido a: (i) fatores genéticos: O rebanho leiteiro brasileiro, em geral, apresenta baixa produtividade genética, o que resulta em menor quantidade de leite por animal; (ii) nutrição: A alimentação dos animais muitas vezes é inadequada, com deficiências nutricionais que comprometem a produção de leite; (iii) manejo: Práticas de manejo inadequadas, como falta de controle sanitário e reprodutivo, também influenciam negativamente a produtividade.

2. Custos de produção elevados: notadamente devido a: (i) insumos: O custo dos insumos, como ração, medicamentos e energia, tem aumentado significativamente, pressionando as margens de lucro dos produtores; (ii) mão de obra: A falta de mão de obra no campo (qualificada e não qualificada) e o aumento dos custos trabalhistas; (iii) falta de gestão profissional nas propriedades rurais, gerando ineficiências.

3. Instabilidade de preços: notadamente devido a: (i) flutuações do mercado: O mercado do leite é bastante volátil, com os preços oscilando frequentemente, o que gera insegurança para os produtores; (ii) governança da cadeia produtiva: A relação entre produtores e indústria não é estabelecida por parcerias estratégicas de longo prazo.

4. Falta de assistência técnica: notadamente devido a: (i) informações técnicas: Muitos produtores de leite possuem pouco acesso a informações, o que dificulta a tomada de decisão coerente e adoção de práticas mais eficientes; (ii) Assistência técnica: A falta de assistência técnica especializada é um dos problemas mais graves, considerando que as tecnologias mais eficientes, normalmente são cada vez mais sofisticadas. Esse problema de assistência técnica é mais grave ainda em fazendas médias e pequenas, que respondem pela maioria do leite brasileiro.

5. Fragmentação da produção e do beneficiamento: notadamente devido a: (i) pequenas propriedades: A produção de leite no Brasil é caracterizada por uma grande quantidade de pequenas propriedades, com elevado custo de logística e de negociação; (ii) pequenas beneficiadoras: um grande número de pequenos laticínios e queijarias dificultam a coordenação e elevam o custo de negociação na cadeia produtiva.

Para superar esses desafios, sugere-se focar em três grandes temas e buscar estratégias específicas que podem ser tornar políticas públicas para o desenvolvimento do setor: (i) Investimentos em pesquisa e desenvolvimento: Para o desenvolvimento de novas tecnologias, conhecimentos e práticas de produção mais eficientes; (ii) Melhoria da assistência técnica: Melhoria dos métodos, da frequência de trabalho da assistência técnica e apoio na gestão das fazendas; (iii) fortalecimento das cooperativas: Para melhorar a governança da cadeia produtiva e promover incentivos técnicos, econômicos e financeiros para a produção de leite, notadamente para atenuar o processo de exclusão de pequenos e médios produtores.

 

Fonte: MilkPoint

25/02/2025

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