Criação em pares: no inverno faz ainda mais sentido

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Embora ainda seja comum bezerros leiteiros serem mantidos em alojamentos individuais nas primeiras semanas de vida, o grupo de pesquisa em comportamento animal da Universidade da Flórida, liderado pela Dra. Miller-Cushon, publicou um artigo instigante, evidenciando como a estação do ano pode impactar o desempenho e atividade de bezerros leiteiros criados em pares (Bonney-King et al., 2025).

A criação de bezerros em lotes ou de forma individual é um tópico bastante discutido por pesquisadores e técnicos, em função de suas vantagens e limitações. Além de reduzir o medo diante de novos elementos, o contato social parece reduzir o estresse e fornecer estímulos afetivos positivos em bezerros jovens. Apesar de tais vantagens, alguns estudos apontam que alojamentos coletivos com grandes grupos podem aumentar a suscetibilidade e disseminação de doenças, particularmente respiratórias e gastrointestinais. 

Nesse contexto, o alojamento em pares representa uma alternativa equilibrada, pois proporciona interação social sem comprometer de forma significativa a saúde. Contudo, seus efeitos sobre o desempenho podem variar conforme as condições ambientais. Bezerros expostos a temperaturas fora da zona termoneutra aumentam o gasto energético com termorregulação, o que pode comprometer tanto a competência imunológica quanto o crescimento. 

Assim, tanto os estresses por frio quanto por calor podem elevar a morbidade e mortalidade, sendo o alojamento social capaz de modular tais efeitos. O estudo de Bonney-King e colaboradores avaliou, entre setembro de 2020 e junho de 2022, os impactos do alojamento em pares em comparação ao alojamento individual, desde o nascimento, sobre o desempenho e atividade de bezerros leiteiros em diferentes estações do ano. 

Várias áreas do Sul e Sudeste, e agora também no Nordeste brasileiro, se destacam como importantes bacias leiteiras. Essas regiões apresentam clima subtropical/tropical úmido, com verão quente e úmido, inverno ameno e moderada ou alta amplitude térmica, aproximando-se do padrão climático da Flórida, onde o estudo que acompanhou 150 bezerras da raça holandesa foi realizado.

Todos os animais receberam colostro de boa qualidade imunológica (4,5 L; Brix > 25%), resultando em transferência passiva adequada em 97% dos casos. Dentro de 72 horas pós-parto, as bezerras foram alocadas aleatoriamente em baias individuais (n = 50) ou em pares (n = 50, totalizando 100 bezerras em pares), considerando proximidade de peso ao nascimento. As baias individuais (0,9 × 1,8 m) e duplas (1,8 × 1,8 m) foram instaladas em galpão aberto com cama de areia (Figura 1).

Figura 1. Baias com cama de areia para alojamento de bezerras de forma individual ou aos pares.

Baias com cama de areia para alojamento de bezerras de forma individual ou aos pares.

Foram definidos dois períodos sazonais: 

  • Estação fria: de outubro até abril, com 20 bezerras em baias individuais e 22 em pares. A temperatura média do período foi de 16,9 ± 5,2 °C. 

  • Estação quente: de abril até outubro, com 30 bezerras em baias individuais e 28 em pares. A temperatura média do período foi de 25,6 ± 3,0 °C. 

Todos os bezerros receberam dieta líquida no volume de 8 L/dia, fracionada em duas alimentações, com fornecimento de ração inicial e água ad libitum. O desaleitamento ocorreu gradualmente a partir da sétima semana de vida. A saúde foi monitorada cinco vezes por semana, incluindo temperatura retal e diagnóstico clínico de diarreia, avaliado ao nível de baia. O manejo alimentar e geral foi o mesmo nas duas estações, mas no inverno foram utilizadas jaquetas de aquecimento em bezerros com sinais clínicos de doença respiratória ou febre, o que não ocorreu no verão (Figura 2).

Figura 2. Detalhe de animais criados aos pares na estação fria, com um animal com jaqueta, e na estação quente do ano.

Detalhe de animais criados aos pares na estação fria, com um animal com jaqueta, e na estação quente do ano.

A interação entre estação do ano e tipo de alojamento trouxe resultados interessantes na saúde dos bezerros. Na estação fria, as bezerras em pares apresentaram menor incidência de febre em comparação às mantidas individualmente. Já na estação quente, a diarreia surgiu mais precocemente e persistiu por mais dias em bezerros, independentemente do tipo de alojamento. 

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De modo semelhante, os dados de desempenho também são bastante curiosos, especialmente quando se observa os efeitos da interação entre tipo de alojamento e estação do ano (Tabela 1). Os bezerros alojados em pares tenderam a apresentar menos sobras de leite na 2ª semana e, a partir da 5ª semana, consumiram mais concentrado do que os alojados individualmente, especialmente durante o desaleitamento na estação fria. 

Tabela 1. Consumo de concentrado, ganho médio e tempo em pé de bezerras alojadas de individual ou em duplas na estação fria ou quente do ano. 

 

Individual

Duplas

Estação

Fria

Quente

Fria

Quente

Consumo de concentrado, Kg/d

    

  Pré desaleitamento

0,13

0,14

0,2

0,17

  Pós desaleitamento

0,81

0,86

0,98

0,90

GMD pré desaleitamento, kg/d

0,60

0,59

0,65

0,61

Peso corporal ao desaleitamento, kg

63,30

63,00

67,10

67,30

Tempo em pé, h/d

    

  Pré desaleitamento

5,90

5,60

6,2

6,2

  Pós desaleitamento

6,30

6,60

6,50

7,1

 

Na estação quente, o padrão de consumo de concentrado não diferiu entre tratamentos, mas observou-se maior consumo de concentrado para animais alojados em dupla durante a estação fria. Os bezerros alojados em dupla apresentaram maior ganho médio diário (GMD) e maior peso corporal ao desaleitamento, independentemente da estação. O maior peso corporal dos bezerros em pares se manteve uma semana após o desaleitamento. 

Quanto à atividade, bezerros alojados em pares permaneceram mais tempo em pé, principalmente no fim da tarde e à noite após a mamada. Independentemente do tipo de alojamento, os bezerros permaneceram mais tempo em pé no verão durante o processo de desaleitamento. No calor, os picos de atividade foram deslocados para horários mais tardios. 

Em suma, o alojamento em pares mostrou-se benéfico ao desempenho, à ingestão de concentrado e à atividade dos bezerros, sem prejuízos claros à saúde, além de atenuar efeitos adversos em condições de estresse por frio. 

O estudo reforça que o alojamento em pares pode ser uma estratégia eficaz para conciliar bem-estar e produtividade. Além de melhorar o crescimento, se revela como uma alternativa segura no que diz respeito à saúde dos animais (diarreia e febre), pontos que normalmente preocupam produtores quando se fala em alojamento coletivo.

Os resultados indicam que o alojamento em pares é uma estratégia promissora, reforçando a relevância do convívio social para o bem-estar dos bezerros, visto que animais naturalmente sociáveis apresentam melhor adaptação quando mantidos em grupo. 

Na prática, os benefícios tendem a ser mais expressivos em regiões ou épocas do ano marcadas por frio, quando o estresse térmico não é tão desafiador se comprado ao calor, e os bezerros conseguem aproveitar melhor as vantagens da interação social. Em áreas muito quentes e úmidas, apesar do ganho ser menor, o manejo não mostrou nenhuma desvantagem.

Portanto, o alojamento de bezerros leiteiros em pares vai além do bem-estar: trata-se também de uma oportunidade de estimular maior consumo de concentrado e favorecer a adaptação ao desaleitamento de forma tranquila e resiliente, garantindo melhor desempenho ao final dessa fase tão crítica e adversa.

Fonte: ESALQ/USP

12/02/2026

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