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21/08/2020
Raiva em herbívoros domésticos: entendendo a infecção nos animais
por: POR CHRISTIAN HIRSCH E GERALDO MÁRCIO DA COSTA | MILKPOINT

A Raiva é considerada uma das doenças infecciosas mais importantes em todo o mundo, dadas as consequências que provoca para a saúde humana, animal e para a economia global. Do ponto de vista de doença, sua principal característica é o fato de ser praticamente 100% letal. Ou seja, tanto animais quanto seres humanos que desenvolvem a doença, o destino final é o óbito, após um período de evolução clínica de até 10 dias, no caso dos animais.

Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde(1), atualmente morrem por ano cerca de 59.000 pessoas, nos territórios de 150 países, inclusive do Brasil. Dada a ocorrência da doença em regiões muito pobres do mundo e com dificuldades na área de vigilância epidemiológica, acredita-se que esta estimativa esteja muito aquém da realidade, que pode ser superior a mais de 100 mil mortos por ano. Já do ângulo da sanidade animal, a Raiva traz sérias consequências tanto para os animais de produção, marcadamente os herbívoros, quanto para os animais de companhia, ou pets.

Os herbívoros domésticos (bovinos, equinos, caprinos e ovinos) são muito atingidos na América Latina em função da elevada transmissão a partir de morcegos que se alimentam do sangue desses animais. A Organização das Nações Unidas Para Alimentação e Agricultura - FAO(2), baseando-se em dados antigos, estima que pelo menos meio milhão de herbívoros domésticos morram por ano apenas na América Latina. Essa estimativa muito provavelmente é bastante subestimada, uma vez que a subnotificação de casos de Raiva em bovinos, equinos e pequenos ruminantes, costuma ser prática comum, tanto por motivos culturais quanto pelas dificuldades de acesso aos serviços de defesa sanitária animal em grande parte dessa região do mundo.

Não menos importante, a Raiva entre os pets é considerada a principal responsável por casos de Raiva humana no mundo(3) e se caracteriza, sobretudo, como uma grave zoonose, que são as doenças dos animais que são transmitidas ao homem. Dentre os pets, os cães são, de longe, os mais importantes em termos de casuística, estando associados como transmissores de casos de Raiva para humanos em 99% das situações. Essa situação é especialmente grave na Ásia e África, onde a cobertura vacinal antirrábica entre cães e gatos domésticos é muito deficiente.

Finalmente, do ponto de vista econômico o custo financeiro do impacto da Raiva no Brasil, ao somar-se os gastos e perdas em Saúde Pública, Sanidade Animal e Produção Animal, foi estimado em 80 milhões de dólares ao ano(4).

Diante de todos esses aspectos, é muito importante que o produtor rural, sobretudo o pecuarista, procure se informar sobre essa doença e, principalmente, adote as medidas de controle e prevenção da Raiva dos herbívoros. Para que se entenda quais são as medidas de controle e prevenção da Raiva, é preciso antes entender um pouco das características de permanência e disseminação do vírus entre esses animais domésticos. A Raiva dos herbívoros é caracterizada por três aspectos principais. O primeiro deles é a variante genética do vírus rábico que normalmente infecta os herbívoros. O segundo é a fonte, ou origem, dessa variante. E o terceiro característica diz respeito a forma com que essa variante viral chega até eles.

Assim, o que seria a variante viral do vírus da Raiva dos herbívoros?

O vírus rábico possui variantes que circulam na natureza e tem características genéticas semelhantes. Essas características foram identificadas em estudos genéticos realizados no vírus da Raiva que circula no Brasil, que demonstraram que por aqui existem pelo menos seis grupos, ou variantes diferentes. A variante viral típica que é encontrada no cérebro de bovinos, equinos e pequenos ruminantes mortos pela doença é a do tipo 3(5).

Essa variante surgiu de um longo processo de adaptação genética e evolutiva do vírus, após sucessivas infecções em um mesmo hospedeiro suscetível. O curioso dessa história é que a variante 3 do vírus rábico não fez essa evolução genética durante sua infecção nos ruminantes, mas sim nos morcegos que transmitem a Raiva para eles. Em outras palavras, a variante 3 encontrada em herbívoros foi acidentalmente levada a eles e não é natural deles. Isso porque os herbívoros não conseguem transmitir a Raiva com facilidade entre si ou para outros animais. Essa transmissão é considerada rara. Assim, o vírus que infecta um bovino ou outro herbívoro, morre com ele. Portanto, os herbívoros não oferecem condições para a evolução do vírus e o surgimento de variantes, que depende de infecções seriadas numa mesma espécie de hospedeiro para aparecer.

Então, de onde vem o vírus que mata os herbívoros domésticos?

A variante 3 surgiu após milhares de transmissões entre os morcegos da espécie Desmodus rotundus que se alimentam de sangue. Os morcegos dessa espécie transmitem a Raiva entre eles, por meio de brigas com mordeduras ou pelo hábito de lamberem-se mutuamente, a fim de manter seus pelos limpos e de espalhar o cheiro que marca os morcegos de um mesmo grupo, ou colônia(6). Nessa situação, o vírus da Raiva encontrou boas condições para passar de uma vítima para a seguinte por várias e várias gerações, surgindo assim a variante 3. A vítima predileta desta variante é, portanto, o próprio morcego D. rotundus. Muitas pessoas não sabem, mas os morcegos também desenvolvem a doença Raiva e, assim como outros mamíferos, eles também morrem em decorrência desta doença...

morcego desmodus rotundus raiva bovina

Mas, então, como a variante 3 do vírus rábico chega nos nossos bois, vacas, cavalos, cabras e ovelhas?

Bom, aí entra a terceira característica da Raiva nos herbívoros. A transmissão se dá no momento em que os morcegos dessa espécie vão obter seu único alimento: o sangue fresco. Os morcegos D. rotundus são classificados como hematófagos, animais que se alimentam de sangue. O termo vem da junção de duas palavras, hematos (= sangue) e fagia (= comer). Esses morcegos saem de seus abrigos a partir do cair da noite e procuram, voando, outros animais de sangue quente. O cheiro do esterco dos bovinos e equinos atrai os morcegos, que tem má visão, mas ótimo olfato(6).

Como criamos esses animais em grande quantidade, existe sempre acúmulo de fezes e o cheiro delas é facilmente identificado e seguido pelos morcegos dessa espécie. Chegando no piquete, estábulo ou galpão aberto, os D. rotundus ainda encontram a facilidade dos nossos animais estarem presos e domesticados, ou seja, são mais dóceis que os animais selvagens. Um verdadeiro “banquete ao luar” que os criadores oferecem a esses “pequenos vampiros alados”.

Ao encontrar nossos animais, normalmente os morcegos pousam ao chão ou no corpo do animal. Com ajuda de suas asas e das patas traseiras, caminham ou saltam até um ponto do corpo da vítima que esteja mais vulnerável que pode ser a região dos cascos, quando o animal está em pé, ou qualquer outro ponto do corpo.

Feito isso, o morcego morde e faz uma pequena ferida em formato de meia lua, com o auxílio de seus dentes incisivos centrais superiores (os dentes da frente), que são afiados e em formato de “V”. Isso é feito com muita rapidez e destreza, e normalmente a vítima não acorda nem se agita. Na medida em que o sangue escorre, o morcego lambe e introduz sua saliva na ferida de alimentação. Isso porque a saliva dos D. rotundus tem propriedade anticoagulante e, assim, ao lamber e salivar na ferida o sangue da vítima flui por mais tempo sem coagular.

Cada morcego bebe cerca de 20 a 30 mililitros de sangue por noite(6), fazendo tantos ataques quanto forem necessários para encher o estômago. Assim, caso o morcego esteja infectado, a variante 3 do vírus da Raiva que está na saliva do morcego entra na ferida aberta para alimentação, no cavalo, boi, vaca, bode ou carneiro. Tem início, então, a infecção viral que, após um período de tempo variável, irá matar o animal após causar danos cerebrais irreversíveis.

Após a mordida do morcego e a introdução do vírus no corpo do herbívoro, o que acontece?

A infecção pelo vírus da Raiva vai seguir quatro etapas básicas(3). Na primeira delas, o vírus vai entrar nas células das fibras musculares existentes no local da mordedura, abaixo do couro. Nessas células o vírus vai se multiplicar, passando de uma para outra até encontrar um nervo. Os músculos precisam do estímulo nervoso que vem desses nervos para poder se contrair e fazer seu trabalho. Por isso, em qualquer músculo existem muitos nervos e o vírus uma hora encontrará um deles. Esse estágio de infecção costuma durar de horas a alguns poucos dias e não provoca qualquer sintoma no animal. A única coisa perceptível é a ferida de mordedura do morcego que, muitas vezes, é bem discreta. Assim, nessa fase normalmente os produtores nem notam que seu animal foi infectado.

A segunda etapa da infecção pelo vírus rábico ocorre nas células que compõem o nervo que o vírus encontrou na musculatura. Esses nervos servem como uma espécie de fio elétrico que conduz impulsos da medula espinal (a medula que fica dentro da coluna vertebral) até o músculo. O impulso que faz os músculos contraírem vem do cérebro ou da própria medula espinal e precisa dessa “fiação elétrica”, os nervos, para chegarem até os músculos. O vírus usa, assim, o caminho da “fiação” dos nervos, para avançar em direção à parte central do sistema nervoso dos animais, que é seu grande objetivo.

A infecção em humanos acontece da mesma forma que nos animais domésticos. Como o caminho do vírus nessa etapa vai da periferia (os músculos abaixo do couro) em direção ao centro nervoso do animal, o cérebro, ela é batizada de “migração neuronal centrípeta”. É um jeito mais vistoso para dizer que o vírus está migrando pelos neurônios (que são as células nervosas) em direção ao centro (do sistema nervoso). Essa fase também é caracterizada pela ausência de manifestações clínicas nos animais.

Na terceira etapa, o vírus atinge a medula espinal e se dissemina por todas as células nervosas da própria medula e, a seguir, de todas as partes do cérebro. Essa etapa progride com a destruição progressiva das células nervosas, mas os sinais clínicos só aparecem no final, quando falta em torno de uma semana para a morte.

Assim, antes do animal começar a apresentar alterações do comportamento e de controle motor, o vírus consegue atingir os pontos de saída de vários nervos que ficam na base do cérebro. Esse é o início da quarta e última etapa da infecção rábica. Entre os nervos atingidos estão um par chamado Glossofaríngeo e outro par chamado Trigêmeo, ambos na região entre a cabeça e o pescoço. A importância desses nervos é que eles vão permitir que o vírus migre em suas células e atinja a região das glândulas que fabricam a saliva, em especial as glândulas salivares abaixo da língua e as atrás da mandíbula, abaixo dos ouvidos. Com a chegada do vírus nessas glândulas, ele também infecta as células aí existentes e começa a ser liberado na saliva.

Em algumas espécies o vírus chega a ser encontrado na saliva até 10 dias antes dos primeiros sinais clínicos, como é o caso do cão(7). Assim, o cachorro pode transmitir a Raiva mesmo na fase em que está aparentemente normal. Nos morcegos essa liberação na saliva pode ser por tempo muito maior antes de aparecerem os sinais da Raiva, alguns autores afirmam até mais de seis meses antes. Assim, o morcego D. rotundus, quando infectado, têm muito tempo para transmitir a Raiva para os animais da criação, durante os ataques noturnos que fizer antes que adoeça e morra(7)Essa informação é importante para o produtor entender porque alguns animais morrem mesmo após o início da vacinação do rebanho, quando surge um surto em sua propriedade e a Raiva é diagnosticada como causa. São animais onde o vírus já tinha atingido a medula espinal e o cérebro, locais onde a proteção promovida pela vacinação não consegue eliminar o vírus e nem impedir sua progressão fatal.

O que se espera com a leitura dessa parte é que o leitor possa compreender as bases que explicam as medidas de controle e prevenção da Raiva, que serão discutidas na segunda parte deste artigo. Assim, o leitor está convidado a continuar esse assunto na nossa próxima participação aqui no MilkPoint. Até lá e obrigado!

Referências bibliográficas

(1) WHO - World Health Organization. Rabies: Epidemiology and burden of disease. Disponível em: https://www.who.int/rabies/epidemiology/en/. Acessado em 18/08/2020.

(2) Sota, C.A. Control of bovine paralytic rabies in Latin America and the Caribbean. Disponível em: http://www.fao.org/3/v0600t/v0600T0a.htm. Acessado em 18/08/2020.

(3) Fooks, A.R. Rabies. Nature Reviews Disease Primers volume 3, Article number: 17091 (2017). Disponível em: https://www.nature.com/articles/nrdp201791

(4) Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Informação divulgada oralmente no I ENDESA, Encontro Nacional de Defesa Sanitária Animal, realizado em João Pessoa - PB, entre os dias 19 a 23 de outubro de 2009.

(5) Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Controle da raiva dos herbívoros: manual técnico 2009 / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. – Brasília: Mapa/ACS, 2009. 124 p.

(6) Bredt, A. e colaboradores. Morcegos em áreas urbanas e rurais. Manual de manejo e controle. Brasília: Fundação Nacional da Saúde. 1998. 117p.

(7) ITO, F. H. & MEGID, J. Raiva. In: MEGID, J. e colaboradores. Doenças Infecciosas em Animais de Produção e Companhia. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. 1.294p.

 

Autores:

CHRISTIAN HIRSCH

Médico Veterinário, Doutor em Ciência Animal, professor nas áreas de Imunologia, Virologia e Doenças Infecciosas dos Animais Domésticos. DMV/UFLA.

GERALDO MÁRCIO DA COSTA

Médico Veterinário, Doutor em Ciência Animal, professor nas áreas de Microbiologia e Doenças Infecciosas dos Animais Domésticos. DMV/UFLA.

 

Fonte e Fotos: Site MilkPoint

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